PORQUE NÃO SOU NEOPURITANO
A despeito de tanta coisa para fazer, a despeito de tanta leitura para
realizar, a despeito de tanta aula para preparar nas disciplinas que ensino no
Seminário Presbiteriano do Norte, todas na área de Teologia Sistemática, decidi
parar tudo e escrever sobre esse tema que tem inquietado o meu coração, ou
seja, a acusação por partes de alguns, de que eu sou um “neopuritano”. É claro
que isso não me incomoda tanto, porque são acusações jogadas a esmo por
pessoas, que nem ao menos se dão ao trabalho de buscarem uma definição do que é
“neopuritanismo”. Também, e isso é igualmente interessante, já fui acusado por
aqueles que se julgam, verdadeiramente, reformados, de “pentecostal”,
“evangelical”, neo-ortodoxo e até de liberal, vejam só! Mas isso é assunto para
outras postagens. Quero me prender nesta, exclusivamente, a responder a
incautos navegantes, que se aventuram, sem base alguma a fazer tal afirmação
sobre a minha pessoa e também, a outras pessoas amigas e colegas de ministério.
Para isso decidi elaborar um check-list do que caracteriza um “neopuritano”, ou
como dizem outros, um puritano da pós-modernidade.
Mas, para inicio de conversa, para ser honesto, preciso definir o que é
puritanismo, ou o que é ser um puritano. O puritanismo surgiu no século XVII,
na Inglaterra, como uma designação pejorativa aos calvinistas. Eles foram assim
tratados, porque desejavam: um culto mais puro, uma igreja mais pura, uma
doutrina mais pura, e uma vida mais pura.
Foram os puritanos ingleses, assistidos pelos presbiterianos da Escócia,
que fizeram seis documentos, importantíssimos, para a igreja daquela época, que
vivia num movimento pendular, ora favorável ao catolicismo romano, ora
favorável ao protestantismo, de conformidade com o (a) monarca que ocupasse o
trono da Inglaterra. Historiadores afirmam que a igreja da Inglaterra ficara
entre duas cidades: Roma, que simbolizava o catolicismo romano, e Genebra, que
simbolizava o protestantismo mais autêntico, proveniente da sistematização
teológica, auferida pelo reformador João Calvino. Esses documentos foram: 1) O
Diretório de Culto de Westminster (primeiro documento produzido pela Assembleia
de Westminster); 2) A Confissão de Fé de Westminster; 3) O Breve Catecismo de
Westminster; 4) O Catecismo Maior de Westminster; 5) Um Saltério e; 6) Um
Sistema de Governo. Destes, a Igreja Presbiteriana do Brasil tem por “símbolo
de fé”, isto é, tem como correta interpretação das Escrituras Sagradas do
Antigo e Novo Testamentos, A Confissão de Fé de Westminster, O Breve Catecismo
de Westminster, e o Catecismo Maior de Westminster.
Já o neopuritanismo, foi um movimento que teve inicio no final do século
passado e inicio deste, o qual tencionava trazer de volta às Escrituras
Sagradas e aos padrões confessionais de Westminster, pois a igreja estava sendo
invadida por práticas heterodoxas, no que se concerne a teologia, envolvendo
distorções sobre a soberania de Deus, sobre soteriologia, com forte apego a
pensamentos arminianos, e principalmente com relação a pneumatologia, passando
pela eclesiologia e chegando por fim também, a escatologia, com grande ênfase
ao pré-milenismo dispensacionalista. As distorções desses ramos da teologia
causaram sérios problemas no culto e na prática da igreja. Pois bem, foi nesse
contexto que surgiu o movimento denominado de neopuritanismo, ou puritanos da
pós-modernidade.
Bem isto posto, vamos ao check-list prometido acima, e que comprova que
eu, nem muitos amigos e colegas de ministério, não somos neopuritanos, como
alguns nos acusam. Esta lista destaca características de um verdadeiro
neopuritano, e que para mim fica claro, que para ser considerado um deles, é
necessário que que preencha pelo menos 50% (cinquenta por cento) da referida
lista, esta pelo menos é a minha percepção. Vamos a ela:
þ
É um individuo normalmente sisudo, que só tem
amizade com que pensa igual a ele;
þ
Não mantém relação com quem pensa diferente;
þ
Gosta de rotular os que não pensam como ele de:
pentecostal, evangelical, neo-ortodoxo, liberal, pragmático, ou de não confessional;
þ
Não gosta que o chamem de neopuritano;
þ
Não assume que é neopuritano;
þ
Se defende do rótulo de neopuritano, acusando os
outros de rotularem a todo o mundo;
þ
Utilizam o princípio regulador do culto cristão,
de forma legalista e não para glorificar a Deus;
þ
Via de regra, já pertenceram a grupos
pentecostais, evangelicais, neo-ortodoxos, liberais ou pragmáticos, mas não
querem usar de misericórdia para com aqueles que são aquilo que ele já foi
outrora;
þ
Não comemora páscoa e natal, por considerar que
são datas e festas pagãs, e desconsideram quem as comemora;[2]
þ
Não permite a existência de coral;
þ
Não permite a existência de grupo de louvor;
þ
Não permite que mulheres orem nos cultos;
þ
Não permite que mulheres leiam a Bíblia no culto,
por isso não realiza leitura alternada;
þ
Advoga a ministração da Santa Ceia restrita;
þ
Abomina, como se pecado fossem, as sociedades
domésticas da igreja;
þ
Abomina, como se pecado fosse, o culto infantil
nos cultos públicos;
þ
Mesmo afirmando, que somente a Bíblia é a nossa
única regra de fé e prática, colocam os nossos Símbolos de Fé em igualdade com
ela (hiper-confessionalidade);
þ
Geralmente, conquanto fale muito de piedade, é afeito
a litígios;
þ
Exclui qualquer manifestação cultural no culto (por
exemplo: levantar mãos, fechar os olhos, palmas rítmicas);
þ
É contra instrumento musical no culto;
þ
Em alguns casos, advogam o uso do véu para as
mulheres;
Estas, entre outras, compõem as características de um neopuritano. Escrevo
esse post, não para denegrir ninguém, quer seja contra ou a favor do movimento.
Escrevo para deixar claro, de uma vez por todas, que nem eu, nem muitos dos
meus irmãos e colegas de ministério, que muitas vezes somos acusados de sermos
neopuritanos, temos tal prática. E de que, uma vez por todas, saibam
diferenciar o que é ser confessional, seguindo os padrões de Westminster que
são abraçados pela nossa igreja, conforme está registrado no capítulo I, Artigo
1º, da Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, que versa sobre Natureza,
Governo e Fins da Igreja.
Deus seja louvado, e que Ele nos abençoe!
Marcos André Marques
[1]
Como subscrevo a Confissão de Fé de Westminster, defendo a salmodia inclusiva,
mas não exclusiva. Isto é, defendo o uso do cântico de salmos nos cultos,
embora isso nada tenha a ver, pelo menos obrigatoriamente, com aqueles salmos
que foram compilados hoje.
[2]
Um colega pastor, me contou sobre o acontecido nos EUA, numa igreja
neopuritana, que não comemorava páscoa, nem natal, mas que seu pastor e
diversos líderes da igreja, fumavam cachimbo e charuto e bebiam liberalmente.
Uma senhora membro da igreja indagou ao pastor, sobre a crise que ela estava
vivendo. Disse ela: “Como o senhor me explica, pois, eu sou de um tempo em que
a igreja cristã comemorava páscoa e natal e considerava pecado fumar e beber.
Porém, agora, estou fazendo parte de uma igreja que libera o consumo de
tabagismo e álcool e afirma que é pecado comemorar páscoa e natal”. O pastor
ficou sem poder explicar nada.
