quarta-feira, 12 de abril de 2017

PORQUE NÃO SOU NEOPURITANO

PORQUE NÃO SOU NEOPURITANO

A despeito de tanta coisa para fazer, a despeito de tanta leitura para realizar, a despeito de tanta aula para preparar nas disciplinas que ensino no Seminário Presbiteriano do Norte, todas na área de Teologia Sistemática, decidi parar tudo e escrever sobre esse tema que tem inquietado o meu coração, ou seja, a acusação por partes de alguns, de que eu sou um “neopuritano”. É claro que isso não me incomoda tanto, porque são acusações jogadas a esmo por pessoas, que nem ao menos se dão ao trabalho de buscarem uma definição do que é “neopuritanismo”. Também, e isso é igualmente interessante, já fui acusado por aqueles que se julgam, verdadeiramente, reformados, de “pentecostal”, “evangelical”, neo-ortodoxo e até de liberal, vejam só! Mas isso é assunto para outras postagens. Quero me prender nesta, exclusivamente, a responder a incautos navegantes, que se aventuram, sem base alguma a fazer tal afirmação sobre a minha pessoa e também, a outras pessoas amigas e colegas de ministério. Para isso decidi elaborar um check-list do que caracteriza um “neopuritano”, ou como dizem outros, um puritano da pós-modernidade.
Mas, para inicio de conversa, para ser honesto, preciso definir o que é puritanismo, ou o que é ser um puritano. O puritanismo surgiu no século XVII, na Inglaterra, como uma designação pejorativa aos calvinistas. Eles foram assim tratados, porque desejavam: um culto mais puro, uma igreja mais pura, uma doutrina mais pura, e uma vida mais pura.
Foram os puritanos ingleses, assistidos pelos presbiterianos da Escócia, que fizeram seis documentos, importantíssimos, para a igreja daquela época, que vivia num movimento pendular, ora favorável ao catolicismo romano, ora favorável ao protestantismo, de conformidade com o (a) monarca que ocupasse o trono da Inglaterra. Historiadores afirmam que a igreja da Inglaterra ficara entre duas cidades: Roma, que simbolizava o catolicismo romano, e Genebra, que simbolizava o protestantismo mais autêntico, proveniente da sistematização teológica, auferida pelo reformador João Calvino. Esses documentos foram: 1) O Diretório de Culto de Westminster (primeiro documento produzido pela Assembleia de Westminster); 2) A Confissão de Fé de Westminster; 3) O Breve Catecismo de Westminster; 4) O Catecismo Maior de Westminster; 5) Um Saltério e; 6) Um Sistema de Governo. Destes, a Igreja Presbiteriana do Brasil tem por “símbolo de fé”, isto é, tem como correta interpretação das Escrituras Sagradas do Antigo e Novo Testamentos, A Confissão de Fé de Westminster, O Breve Catecismo de Westminster, e o Catecismo Maior de Westminster.
Já o neopuritanismo, foi um movimento que teve inicio no final do século passado e inicio deste, o qual tencionava trazer de volta às Escrituras Sagradas e aos padrões confessionais de Westminster, pois a igreja estava sendo invadida por práticas heterodoxas, no que se concerne a teologia, envolvendo distorções sobre a soberania de Deus, sobre soteriologia, com forte apego a pensamentos arminianos, e principalmente com relação a pneumatologia, passando pela eclesiologia e chegando por fim também, a escatologia, com grande ênfase ao pré-milenismo dispensacionalista. As distorções desses ramos da teologia causaram sérios problemas no culto e na prática da igreja. Pois bem, foi nesse contexto que surgiu o movimento denominado de neopuritanismo, ou puritanos da pós-modernidade.
Bem isto posto, vamos ao check-list prometido acima, e que comprova que eu, nem muitos amigos e colegas de ministério, não somos neopuritanos, como alguns nos acusam. Esta lista destaca características de um verdadeiro neopuritano, e que para mim fica claro, que para ser considerado um deles, é necessário que que preencha pelo menos 50% (cinquenta por cento) da referida lista, esta pelo menos é a minha percepção. Vamos a ela:

þ É um individuo normalmente sisudo, que só tem amizade com que pensa igual a ele;
þ Não mantém relação com quem pensa diferente;
þ Gosta de rotular os que não pensam como ele de: pentecostal, evangelical, neo-ortodoxo, liberal, pragmático, ou de não confessional;
þ Não gosta que o chamem de neopuritano;
þ Não assume que é neopuritano;
þ Se defende do rótulo de neopuritano, acusando os outros de rotularem a todo o mundo;
þ Utilizam o princípio regulador do culto cristão, de forma legalista e não para glorificar a Deus;
þ Via de regra, já pertenceram a grupos pentecostais, evangelicais, neo-ortodoxos, liberais ou pragmáticos, mas não querem usar de misericórdia para com aqueles que são aquilo que ele já foi outrora;
þ É adepto de salmodia exclusiva;[1]
þ Não comemora páscoa e natal, por considerar que são datas e festas pagãs, e desconsideram quem as comemora;[2]
þ Não permite a existência de coral;
þ Não permite a existência de grupo de louvor;
þ Não permite que mulheres orem nos cultos;
þ Não permite que mulheres leiam a Bíblia no culto, por isso não realiza leitura alternada;
þ Advoga a ministração da Santa Ceia restrita;
þ Abomina, como se pecado fossem, as sociedades domésticas da igreja;
þ Abomina, como se pecado fosse, o culto infantil nos cultos públicos;
þ Mesmo afirmando, que somente a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, colocam os nossos Símbolos de Fé em igualdade com ela (hiper-confessionalidade);
þ Geralmente, conquanto fale muito de piedade, é afeito a litígios;
þ Exclui qualquer manifestação cultural no culto (por exemplo: levantar mãos, fechar os olhos, palmas rítmicas);
þ É contra instrumento musical no culto;
þ Em alguns casos, advogam o uso do véu para as mulheres;

Estas, entre outras, compõem as características de um neopuritano. Escrevo esse post, não para denegrir ninguém, quer seja contra ou a favor do movimento. Escrevo para deixar claro, de uma vez por todas, que nem eu, nem muitos dos meus irmãos e colegas de ministério, que muitas vezes somos acusados de sermos neopuritanos, temos tal prática. E de que, uma vez por todas, saibam diferenciar o que é ser confessional, seguindo os padrões de Westminster que são abraçados pela nossa igreja, conforme está registrado no capítulo I, Artigo 1º, da Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil, que versa sobre Natureza, Governo e Fins da Igreja.
Deus seja louvado, e que Ele nos abençoe!
Marcos André Marques




[1] Como subscrevo a Confissão de Fé de Westminster, defendo a salmodia inclusiva, mas não exclusiva. Isto é, defendo o uso do cântico de salmos nos cultos, embora isso nada tenha a ver, pelo menos obrigatoriamente, com aqueles salmos que foram compilados hoje.
[2] Um colega pastor, me contou sobre o acontecido nos EUA, numa igreja neopuritana, que não comemorava páscoa, nem natal, mas que seu pastor e diversos líderes da igreja, fumavam cachimbo e charuto e bebiam liberalmente. Uma senhora membro da igreja indagou ao pastor, sobre a crise que ela estava vivendo. Disse ela: “Como o senhor me explica, pois, eu sou de um tempo em que a igreja cristã comemorava páscoa e natal e considerava pecado fumar e beber. Porém, agora, estou fazendo parte de uma igreja que libera o consumo de tabagismo e álcool e afirma que é pecado comemorar páscoa e natal”. O pastor ficou sem poder explicar nada.